viernes, 8 de febrero de 2019

Febrero 2019 C.E.T. - ETICA TEOSOFICA

C.E.T. - Ética Teosófica

Por Agnimitra  - 8.2.19

Salve! Vamos iniciar mais um ciclo de estudos teosóficos. Hoje nós vamos conversar um pouco sobre ética teosófica. No nosso último círculo de estudos, nós falamos um pouco sobre o que é Teosofia e ali nós vimos alguns aspectos da Teosofia. Teosofia no seu aspecto transcendental, que não é diferente de sabedoria, que não é diferente do próprio estado iluminado da mente - um aspecto mais intangível de Teosofia; e um aspecto mais tangível de Teosofia que é essa sabedoria ancestral preservada pela Fraternidade Oculta, pela Fraternidade Planetária.

Nós também conversamos um pouquinho sobre como a Teosofia oferece um método, oferece um sistema prático de desenvolvimento espiritual do ser humano, mas a Teosofia também - e esse é um ponto fundamental no caminho teosófico - a Teosofia também estabelece um sistema ético. E quando nós dizemos que a Teosofia estabelece um sistema ético, isso não tem muito a ver com regras que são impostas de fora.

Aqui nós encontramos a primeira grande diferença entre a ética teosófica e a ética das diferentes religiões, com exceção de uma ou duas. É que enquanto geralmente nas religiões a ética é reforçada por dogmas - e esses dogmas geralmente tem uns fundamentos um pouco irracionais, no sentido de que no final da discussão, o argumento que prevalece é 'porque essa é a vontade de Deus', 'porque é isso que está escrito lá naquele livro sagrado x ou y' - a ética teosófica não está embasada em uma autoridade externa.

Como a Teosofia, no seu aspecto tangível, é o resultado da experiência de gerações e gerações desde o surgimento da nossa humanidade, e para além, da experiência de seres humanos que trilharam o caminho do despertar, a Teosofia não se fia na autoridade externa e no dogmatismo. Existem proposições que foram testadas e comprovadas empiricamente pelos iniciados de todas as eras. Se você cumpre os pré-requisitos para esse tipo de experiência, você é convidado a fazer os mesmos testes e comprovar por você mesmo de primeira mão a verdade ou não dessas proposições.

Mas antes disso, nós temos esse princípio ético que é fundamental e esse princípio ético surge da primeira grande proposição da Teosofia - que a gente vai estudar mais profundamente em estudos posteriores, quando nós começarmos a nos aproximar do ensinamento que está disponível na Doutrina Secreta, ali nós temos que começar assimilando as proposições fundamentais da Doutrina Secreta.

A primeira proposição fundamental da Doutrina Secreta sustenta todo o sistema ético, ela é a base de todo o sistema ético, é o que dá sentido para o sistema ético. Aqui na Chave para a Teosofia, nós temos isso representado de certa maneira. Isso está no capítulo três, onde ela (H.P.B.) responde algumas questões sobre o objetivo da Sociedade Teosófica. E a conversa está girando em torno da Fraternidade Universal, se isso é utópico ou não, então ela diz o seguinte, porque a pergunta é como, a pergunta que é feita é como, no sentido de como que isso pode ser estabelecido. Ela diz: “... simplesmente demonstrado sobre as bases lógicas, filosóficas, metafísicas e mesmo científicas que: a) Todos os homens tem espiritualmente e fisicamente a mesma origem. O que é o ensinamento fundamental da Teosofia...”

Então, essa unidade básica da vida - e que, por consequência, se aplica à humanidade - é o ensinamento fundamental da Teosofia e é o próprio grande pilar do sistema ético teosófico. Mais adiante ela diz: “... como a humanidade tem fundamentalmente uma mesma essência e essa essência é una, nada portanto pode afetar uma nação, ou um homem, sem afetar todas as outras nações e todos os outros homens”. E aqui nós temos o segundo elemento que de certa maneira está na segunda proposição da Doutrina Secreta, que é o Karma, a lei de causa e efeito.

Essas duas proposições fundamentais sustentam o sistema ético. E aqui você não pede a crença numa entidade externa, sabe? Como se essa lei fosse imposta de fora, porque “Deus quer”, um Deus qualquer enfim. Não, isso apela ao nosso senso lógico. E muito interessante é que as pesquisas científicas só tem trazido mais evidências dessa unidade básica. Se não dessa unidade essencial, porque a ciência ainda não chegou a explorar esse aspecto mais psíquico da vida, mas com certeza, interdependência. Isso, cientificamente já está sendo comprovado e a cada dia nós temos evidências mais claras e mais chocantes até, porque às vezes essas evidências vem através dos resultados catastróficos, do desrespeito a esse caráter interdependente dos elementos que constituem o nosso planeta e a gente vai tomando mais lucidez, sabe? É cada vez mais difícil negar esse caráter interdependente da vida.

Então, esses dois elementos: a) todos os seres possuem ou surgem dessa essência una, nós estamos intimamente ligados e conectados, e b) não há um só movimento que não cause uma repercussão em última instância em todo esse conjunto; esses dois pontos nos colocam na direção correta da compreensão da ética teosófica. A ética teosófica está baseada nisso, ela não está baseada numa vontade externa, em um grupo de leis aleatórias e arbitrárias. É muito natural e é muito lógico, se você compreende essas duas proposições. Se você compreende esses dois aspectos básicos da realidade, você não tem dificuldade para compreender a ética teosófica. Isso não quer dizer que a gente tenha facilidade em aplicá-la, porque a nossa percepção nesse momento, nesse período da nossa experiência, em que nós estamos encarnados em um corpo físico e etc, nossa percepção funciona de maneira fragmentada.

Nós estamos sob o véu de uma ilusão muito forte. E essa ilusão muito forte é a ilusão de que essa distinção e essa diferenciação que nós percebemos através dos sentidos físicos é real. E é por conta dessa distinção e dessa identificação com “eu”, que é esse fenômeno sendo percebido aqui e agora e com o qual a consciência está mais intimamente ligada, que se abre espaço para que nós entremos em uma relação de aversão e atração com os demais elementos, que são percebidos então como distintos de “eu”. E isso, isso é um equívoco, porque há Uma consciência, há Uma vida e há Uma substância, há Um espírito. A gente vai ver isso profundamente nas proposições da Doutrina Secreta, mas há um Espírito - há uma Consciência; há uma Vida - há uma Energia; há uma Substância – a Mãe, Matéria; e esses três são Um.

Na nossa experiência ignorante, samsárica, nós percebemos a multiplicidade e nós nos identificamos com um ponto em particular dessa multiplicidade e nós rotulamos isso como “eu”. A partir do momento em que isso acontece, todo o resto é “outro”. E nós estabelecemos relações de aversão e atração e com base nisso, então, nós começamos a perturbar a harmonia do Cosmos através das nossas ações egoístas. Nós começamos a aplicar a força centrífuga e centrípeta com base em uma percepção equivocada. Então nós pomos a lei em ação. A lei cármica não é posta em ação por uma força misteriosa e extra-cósmica, não!
É o funcionamento intrínseco da natureza, como resposta ao movimento da consciência.

Não há um poder fora te castigando e te julgando. E essa é outra coisa maravilhosa do ensinamento teosófico, porque o ensinamento teosófico é emancipador. E tem essa proposta porque o próximo passo para a humanidade, para essa humanidade no nosso planeta pelo menos, é emancipação. E emancipação do que? Emancipação do egoísmo. Emancipação da noção animal de “eu” que nós possuímos.

É muito interessante, nós olhamos para nossa humanidade e nós percebemos que nós funcionamos de uma maneira muito estranha, muito estranha. Aqueles comportamentos que no reino animal são completamente contextualizados, demostrados no contexto humano são completamente destrutivos, são completamente absurdos. Isso porque no reino animal a consciência está desenvolvendo essa experiência de “eu”, de eu distinto, ela está desenvolvendo todos esses aspectos do campo psíquico e de uma semente de mente racional. E quando nós vemos a humanidade tendendo para esse processo que ela já atravessou, é muito estranho, sabe? E não é só estranho, eu estou usando a palavra 'estranho' para não usar palavras mais fortes, não é? Porque na verdade é aterrador, é um pesadelo, é um pesadelo. Essa etapa em que nós nos encontramos enquanto humanidade é o grande campo de batalha, porque aqui nós temos o grande desafio de domar, de sublimar os nossos impulsos instintivos e subjugá-los à luz do Espírito, à luz da Consciência Superior e a Ética Teosófica é o caminho para isso.

A ética teosófica surge como uma necessidade implícita da natureza, e não como uma imposição explícita de uma vontade extra-cósmica. Isso nós devemos compreender, porque nós precisamos tocar a compreensão do fundamento da ética teosófica, para que essa ética comece a brotar do nosso coração e permeie as nossas ações. Para que a gente também não caia no risco, que é um risco muito real, muito próximo - e nós vemos exemplos disso durante todo o tempo - de nos transformarmos em sepulcros caiados, em hipócritas, sustentando aparência de limpeza, de pureza, de perfeição, mas escondendo dentro putrefações horríveis. E aí com relação a isso, eu remeto àquela D.R. que nós tivemos sobre auto-compaixão, tem tudo a ver com isso.

Eu queria ler mais um pedacinho aqui da Chave para a Teosofia, para reforçar essa mensagem. Ela diz assim: “... a identidade da nossa origem física não apela aos nossos mais elevados e profundos sentimentos...”, e aqui está a razão pela qual o conhecimento científico apenas não é suficiente para produzir a transformação moral e de consciência necessária na nossa sociedade. Apenas um conhecimento físico não tem esse poder, e aí a gente compreende porque apesar dessas evidências científicas e tudo mais, isso parece que tem pouquíssimo impacto na consciência humana. Tem um impacto para aqueles que já estão nesse processo, na verdade, para aquelas pessoas que não precisariam dessa evidência, porque já percebem essa verdade intuitivamente. Mas para o coletivo, a gente não percebe muito o impacto, não é? E é por isso.

Ela continua dizendo: “... a matéria, despojada de sua alma e espírito, ou sua divina essência não pode falar ao coração humano. Mas a identidade da alma e do espírito do homem real, imortal, como a Teosofia nos ensina, uma vez provada e profundamente enraizada em nossos corações nos levaria longe no caminho da caridade verdadeira e da boa vontade fraternal.”

E então tem uma pergunta: “Como é que a Teosofia explica a origem comum do homem?” E ela explica: “Ensinando que a raiz de toda a natureza objetiva e subjetiva e tudo o mais no universo visível e invisível, é, foi e sempre será uma essência absoluta da qual tudo vem e para a qual tudo retorna”. Isso é o eco de todas as tradições autênticas ao longo do tempo.

Então aqui nós temos esses fundamentos da Ética Teosófica, mas aí nós podemos nos perguntar: “E na prática, como isso acontece? O que isso quer dizer na prática? Tem alguma linha de ação? Tem alguma orientação de ação?”. E, temos sim! A gente tem uma pista muito interessante para um guideline, para algumas linhas de orientação na própria Chave para a Teosofia.

No final do primeiro capítulo da Chave para a Teosofia está sendo debatido a identidade e semelhança de Teosofia e Budismo. E então ela está esclarecendo que apesar de haverem semelhanças não são a mesma coisa, porque a Teosofia é a raiz de onde todas as religiões surgem e não é propriedade de uma delas em particular. Mas então, há uma pergunta: “Mas não é a ética da Teosofia idêntica a ensinada pelo Buda?”

E aqui nós temos o nosso gancho, porque ela responde: “Certamente, porque essa ética é a alma da Religião-Sabedoria e foi um dia propriedade comum dos iniciados de todas as nações. Mas Buda foi o primeiro a incorporar essa elevada ética aos seus ensinamentos públicos e fazer dela o fundamento e a própria essência do seu sistema público”. Mas lá no final ela diz: “No entanto, Teosofia não é Budismo”.

Mas aqui nós temos a pista para a ética teosófica, porque a ética teosófica é idêntica àquela ensinada pelo Buda, então nós temos aqui a pista que nós precisamos para encontrar linhas práticas de orientação com relação à ética teosófica. Uma vez que nós podemos nos espelhar na ética budista como uma representação segura e confiável da ética teosófica, então nós encontramos nessa ética budista as orientações que nós precisamos para compreender de forma mais prática o que é ética teosófica. Porque quando a gente fala de Fraternidade Universal e essa coisa da Essência Una, isso tudo fica muito no campo do abstrato, mas lembremos que ética teosófica não só é baseada nisso, ela também é baseada no Karma. E aqui nós precisamos compreender esse ponto bem, porque existem efeitos para as nossas ações. E o nosso sofrimento e a nossa alegria dependem exatamente da qualidade das nossas ações e das nossas motivações.

Então vamos falar um pouquinho do que é a ética no Budismo, para a gente ter alguns insights a respeito de como aplicar a ética teosófica na nossa vida - e isso é essencial se você deseja estudar Teosofia. Não somente se você deseja se aproximar da Teosofia exotérica, que são os ensinamentos disponíveis sobre Teosofia, mas especialmente se você tem aspiração de se aproximar da Teosofia esotérica, da Teosofia oculta, que é Filosofia oculta, que é o processo iniciático em si. Aí é essencial, é essencial, porque nós temos Teosofia teórica, nós temos Teosofia prática. Nós temos os ensinamentos e nós temos a Teosofia prática que é o Ocultismo e entrar no caminho do Ocultismo sem uma base firme de ética é a mesma coisa que assinar uma passagem, comprar uma passagem direto para o inferno. Sério mesmo. Nós temos muitos exemplos no mundo de pessoas - e assim ao nosso lado, só você abrir um pouco os olhos - que não tem um preparo ético, não tem compreensão desses fundamentos éticos da vida e que se lançam a mexer com as diferentes energias e com espiritismo e com artes ocultas, e todo o tipo de manipulação da energia e se perde completamente. Isso deve ser muito bem compreendido. Vamos ter oportunidade de falar muito sobre esse assunto em estudos futuros.

Vamos falar então de ética. Buda quando ensinou, quando começou o seu processo de ensino público, começou falando das quatro Nobres Verdades, pelo menos é isso que o cânone tradicional em Páli afirma, ele começou ensinando por isso. Mas então nós encontramos pontos que são fundamentais no ensinamento do Buda e que compõem o sistema ético do Budismo e isso foi chamado de o Nobre Caminho Óctuplo, que é exatamente a quarta Nobre Verdade.

A primeira Nobre Verdade que o Buda ensinou na primeira girada do Dharma foi
Dukkha - sofrimento. A existência ignorante é sofrimento. E esse sofrimento não é só o sofrimento grosseiro, mas é também o sofrimento de não ter aquilo que você quer. O sofrimento não é só ter aquilo que você não quer, ou seja a dor. O sofrimento é também não ter aquilo que você quer, é um sofrimento mais sutil. Então tem o sofrimento da impermanência, as coisas não duram, mesmo que você alcance aquilo que você quer ter, esse objeto que você alcançou não vai durar, e aí tem o sofrimento da perda, à qual todos os seres humanos estão sujeitos. Então, porque tudo é impermanente e porque nós estamos numa condição ignorante, há uma insatisfação profunda, existencial, que não pode ser saciada por nenhum fenômeno, porque todos os fenômenos são impermanentes e esse é o nível mais sutil de Dukkha.

Então ele ensinou que a raiz do sofrimento é o desejo. Na verdade 'desejo' é uma tradução assim muito simplista do termo que ele usou, mas vamos com isso. Porque na palavra que ele usou está implicado apego, está implicado anseio, está implicado identificação – Tanha. Tem algumas implicações no termo que o Buda usou, mas a gente usa como desejo. Então essa identificação com o 'eu' e a busca da satisfação dos desejos desse 'eu' imaginário são a raiz do sofrimento, a energia da consciência fluindo para fora, em direção aos reflexos.

Então ele disse “mas há a cessação do desejo, Nirvana”. Há a cessação do desejo. E há o caminho para a cessação do desejo, que é a quarta Nobre Verdade, que é o Nobre Caminho Óctuplo.

Então nós vamos passear rapidamente pelo Nobre Caminho Óctuplo. Eu vou explicar cada um desses oito pontos de forma... Eu não sou professor de Budismo, então eu posso estar aqui dando um passo em um terreno em que pode ser considerado que eu não tenho autoridade e o direito de discutir, mas eu discuto isso nos termos da semelhança e identidade do sistema ético budista com a Teosofia. Então, vamos conversar um pouco sobre isso agora.

O Nobre Caminho Óctuplo, então, são oito pontos definidos como um processo, esse processo de treinamento e de desenvolvimento que leva ao Nirvana, que leva à cessação do sofrimento. Então, nós temos correta visão, nós temos correta intenção, nós temos a fala correta, a ação correta, meios de vida corretos, esforço correto, atenção correta e meditação correta. Nós temos esses pontos como os oito pontos que compõem o Nobre Caminho Óctuplo. Então vamos conversar um pouquinho sobre eles.

Existem uma série de ensinamentos muito profundos a respeito do Nobre Caminho Óctuplo em que nós podemos dividir o Nobre Caminho Óctuplo em três tipos de treinamento, por exemplo: o cultivo de virtude, o cultivo de meditação e o cultivo de sabedoria, mas vamos ver isso ao longo da nossa conversa aqui.

Então vamos começar com correta visão. Esse ponto da correta visão numa compreensão primeira, nós poderíamos entender como a compreensão da natureza, a causa do sofrimento e o método de liberação do sofrimento. Na verdade essa correta visão tem a ver com sabedoria e é interessante que o Nobre Caminho Óctuplo comece aí. Mas todo o Nobre Caminho Óctuplo nos leva para aí. Nós começamos tentando desenvolver correta visão, ou seja, “espera lá, vamos compreender o que está acontecendo aqui”. E na verdade no caminho espiritual é exatamente o que acontece.

Podemos dizer que iniciamos - com consciência, é claro - o caminho espiritual quando a gente começa a se questionar a respeito, “Espera lá, qual é a causa das coisas como elas são? O que é isso de fato, quem eu sou, de onde eu vim, para onde eu vou?”. Essas questões fundamentais. É quando a gente transcende a atração às experiências sensoriais em alguma medida que nos permita respirar, que permita à alma respirar e nos fazer essas questões “Olha, você já se perguntou o porquê de tudo isso?”, então aí começa a visão correta. Mas todo o caminho é para nos levar a desenvolver a visão reta. E a visão correta aqui não deve ser entendida na noção de que existe um e de que esse é o correto, porque existe um livro que tem a visão que é correta, não! Na visão reta, você compreende a natureza e a causa do sofrimento e o método de liberação, entende? Não é que você vai aprender isso em um livro, você tem que trilhar o Nobre Caminho Óctuplo e o resultado do Nobre Caminho Óctuplo vai ser essa compreensão. Porque essa compreensão libera do sofrimento. Uma vez que o grande obstáculo que nós temos é a ignorância.

Então, como é que nós começamos a aprender isso? Ouvindo o ensinamento. O ensinamento chega para nós, porque o ensinamento não é diferente da natureza da nossa mente, perceba. Aqui, nessa existência sensorial, nós percebemos os fenômenos como distintos, como diferentes, mas o ensinamento que parece nos chegar de fora é apenas o eco da própria sabedoria interna, da própria luminescência da sua alma espiritual. Então é claro, essa luz que não pode ser percebida com os nossos sentido internos ainda diretamente, nos chega através dos sentidos externos, através da instrução. E é com a instrução que nós vamos começando a investigar a causa do sofrimento, “por que isso?”. E aí nós vamos compreendendo a respeito de ignorância, identificação e o método de liberação.

E aí nós temos o segundo ponto do Nobre Caminho Óctuplo, que é correta intenção, que é geralmente compreendida como uma prontidão em iniciar a renúncia a apego e cultivar a compaixão. Porque, todos os outros pontos, que são os pontos três, quatro e cinco, e o seis até certa medida, mas especialmente o três, quatro e cinco, eles dizem respeito diretamente ao cultivo de virtude. Esses dois primeiros pontos são o cultivo de sabedoria, que dizem respeito à visão. Perceba que a sua ação externa depende da sua intenção e é por isso que assim que você começa a alinhar sua visão, você pode corrigir sua intenção. E essa intenção é o que vai empoderar a sua ação no mundo, percebe? Olha como é maravilhoso, está completamente concatenado, realmente é um espelho perfeito do ensinamento teosófico.

Então essa correta intenção é uma prática. Tudo isso é prática. Assim como a prática externa da correta visão é você ouvir o ensinamento e contemplar o ensinamento e tentar compreender o ensinamento e, especialmente, tentar investigar o ensinamento, usando suas faculdades lógicas e intelectuais, a correta intenção é o esforço que você começa a fazer assim que você ganha confiança no ensinamento de: “Espera lá, eu preciso estar atento aqui. Qual é a minha intenção com as minhas ações?” e você começa a renunciar o apego e começa a cultivar compaixão, que é a renúncia de aversão. Então você começa a estabelecer uma intenção que é reta, que não pende nem para um lado, nem para o outro. E à medida que você vai investigando a natureza da realidade, mais a sua intenção vai se estabelecer de maneira correta, porque a sua visão vai se esclarecendo. E aí é claro, os três pontos seguintes, eles meio que vão surgindo. Em um primeiro momento você faz com um certo esforço, mas eles começam a fluir naturalmente à medida que os dois primeiros pontos vão sendo mais aprofundados.

O terceiro ponto é a fala correta, que é geralmente compreendida como usar a sua fala de forma impecável, evitando mentira, evitando ofensa verbal e calúnia, enfim. Ou seja, com base naquela primeira intenção que é de evitar o apego e cultivar a compaixão, a sua fala deve espelhar essa intenção. Simples! Por que eu devo fazer isso? Porque Deus mandou? Porque o Buda mandou? Não, porque existe uma lei básica da natureza que é a lei de causa e efeito e se você fizer isso com alguém é o que você vai receber. Ponto. Simples, sabe? Não tem aqui nenhum elemento de culpa, sabe? Não tem nenhum elemento de se redimir arbitrariamente, não. Existem ações e essas ações produzem efeitos e você deve, se você é um pouco inteligente, você deve começar a cultivar boas ações, se você quer ter bons resultados. Simples assim. Não é tão simples aplicar, porque a força do nosso apego e da nossa aversão, são mecanismos profundamente alimentados, alimentados por éons incontáveis. Então muitas vezes nós sabemos disso, nós temos isso instalado intelectualmente, mas a força do instinto, e a força das paixões nos levam a ações que depois nós ficamos “Como é que eu pude fazer aquilo, se eu sabia que aquilo,sabe, o resultado daquilo vai ser sofrimento para mim e para os outros?”. Mas é na medida em que você vai cultivando visão, cultivando intenção, que você vai empoderando sua ação.

O quarto ponto é a ação reta, que é evitar ferir os outros, no sentido físico. Ou seja, roubar, matar, obsessão sexual, violência sexual, todas essas questões, todos essas ações físicas. Então nós temos ali a fala, nós temos agora a ação física, isto também é óbvio. Ninguém quer sofrer, você não quer sofrer, então não cause sofrimento aos outros. Está vendo? Muito básico, é uma ética muito básica, em que não tem nenhuma regra absurda como “não pode cortar o seu cabelo no dia de lua cheia, porque senão Deus vai te mandar para o inferno”, sabe? E respeito quem acredita nisso. Eu nem sei se isso existe na verdade, mas se existe, enfim, eu respeito quem acredita nisso, mas você precisa apelar para uma autoridade externa. Enquanto que essas orientações são o bom senso, elas são o bom senso. E elas são empoderadas na medida em que você compreende a unidade básica da vida e a lei de causa e efeito. Elas só se baseiam nesses dois pontos.

Então nós temos os corretos meios de vida, que são compreendidos como você ganhar sua vida de maneira que honre a você e aos outros. Tradicionalmente no Budismo, por exemplo, no Budismo do Sul pelo menos se fala que existem certas atividades profissionais que vão contra essa orientação do Buda. Por exemplo, você ganhar a sua vida através da matança de animais, ou da venda de bebidas, entorpecentes, enfim, porque é uma forma de ganho de vida que não está honrando a você e aos outros. Então nós precisamos meditar a respeito disso, porque a forma como nós ganhamos a nossa vida material, a nossa profissão, é uma forma de se criar o sonho. Então, da qualidade dessa ação nós estamos colocando a qualidade das experiências futuras. E mesmo quando nós falamos de uma profissão que a priori não afeta de maneira negativa a si e aos outros, ainda assim nós devemos prestar atenção em como nós aplicamos as nossas energias nessa ação. Qualquer profissão tem espaço para a fraude, para a mentira e para se causar dano a si e aos outros. Então, é mais do que que tipo de profissão, que tipo de meio de vida, é como eu conduzo isso.

E aí então nós entramos no correto esforço que é o cultivo de uma disciplina sincera, sem exageros. Porque o Buda ensinava o caminho do meio. Nem as austeridades extremas e nem a completa lassidão e preguiça e indulgência. Mas aqui, uma disciplina que nos leva progressivamente ao desenvolvimento, sem no entanto ser desrespeitoso com o corpo, porque o corpo é o nosso veículo de prática e deve ser respeitado. Então aqui nós temos o correto esforço, como eu aplico a energia de maneira correta. Então aqui, nós precisamos de novo cultivar a visão, nós precisamos de novo cultivar a intenção, porque esse cultivo da visão e da intenção vão emponderar uma correta aplicação da energia que é o correto esforço.

E aqui já no reto esforço e nestes dois últimos pontos que são a correta atenção e a correta meditação, nós temos o que é considerado o treinamento de meditação, ou o treinamento do cultivo da mente. Lembra que eu falei que se subdivide, esse Nobre Caminho Óctuplo, em três níveis? O cultivo de sabedoria - que são os dois primeiros pontos, visão e intenção. O cultivo de virtude, que seriam os três, quatro próximos pontos - que é correta fala, correta ação, correto meio de vida e correto esforço, que também entra aí de certa maneira. Mas esse correto esforço está mais dentro do cultivo de meditação - que são estes três últimos pontos, correto esforço, ou seja, aplicação da energia de modo a que a disciplina se mantenha em um nível adequado, sem ir para um extremo ou outro. A correta atenção que é você cultivar o hábito de gentilmente estar monitorando e moldando o seu conteúdo mental.

Então, essa é a atenção plena, você tem que estar consciente do que está acontecendo dentro de você, porque se você não estiver consciente do que está acontecendo dentro de você, você vai estar inconsciente do que está acontecendo fora de você, e você vai agir de forma inconsciente. Então você não tem como assumir as rédeas da sua vida, porque elas vão estar nas mãos dos seus hábitos, dos seus condicionamentos, dos seus impulsos animais, instintivos. Então, a correta atenção pode ser expandida em um cultivo mais profundo, no sentido dos treinamentos de atenção plena, que são as práticas de serenidade por exemplo, as práticas de calmo permanecer, de Shamatha, enfim, existem vários nomes para isso. E que no Jardim Aní, no ensinamento de Aní Wata, nós temos isso como o Portal da Serenidade. O Portal da Serenidade é o cultivo de atenção, que se estende para além do período formal de prática ao longo do dia, nesses termos em que você monitora o seu conteúdo mental e você molda o seu conteúdo mental.

Então nós temos o último ponto do Nobre Caminho Óctuplo que é a correta meditação e que é compreendida como o desenvolvimento da prática de uma consciência focada, intencional. E aqui então, nós temos ainda esse aspecto do Portal da Serenidade, mas já unindo o Portal da Serenidade com o Portal da Vibração, que é a investigação. Ou seja, aqui nós temos o cultivo de atenção plena e o cultivo de insight. E aí tem técnicas, não é? Tem técnicas. Esse é o método e tem técnicas. A gente já conversou um pouco sobre isso, sobre a universalidade do método e a diversidade das técnicas, ou a universalidade do caminho e a diversidade dos caminhantes, das formas de se caminhar.

Então nós temos aqui esses oito pontos, que nós podemos compreender então em três grandes pontos:

Cultivo de virtude. Nós devemos começar a cultivar virtude. Quer nós compreendamos bem ou não porque devemos cultivar virtude, nós devemos cultivar virtude. Porque isso, o cultivo da virtude, é como se você começasse a limpar grandes obstáculos do seu caminho espiritual. Nós já geramos muitos obstáculos no passado, porque são vidas e vidas de ignorância, vidas e vidas lutando pelo 'eu', para o 'eu', para o benefício do 'eu'. Então nós já acumulamos muitos obstáculos, nós temos, como indivíduos, como nação e como humanidade, nós temos sérios problemas cármicos.

Nós temos que parar imediatamente de produzir Karma negativo, imediatamente. Olhe ao seu redor, olhe ao seu redor e você vai perceber qual é a qualidade do seu Karma, porque você não está aqui à toa, você não está nessa humanidade à toa, você não está nesse planeta, nessa época à toa. Seu Karma lhe trouxe até aqui e o seu Karma é a sua ação. Não é um poder externo, Karma significa ação. O seu Karma lhe trouxe aqui, olhe ao redor e você vai ver a qualidade do seu Karma. Nós temos sérios problemas cármicos, que nós precisamos abordar imediatamente. Imediatamente nós precisamos dar um fim na nossa ação destrutiva, para que a gente comece a limpar o nosso caminho, não só por nós, mas por todos os seres. Não só pelos seres humanos, mas por aqueles seres no reino animal, no reino vegetal que vão chegar a ser humanos um dia, sabe? Não é só para os nossos filhos e netos. São para as futuras humanidades.
Alguém cuidou bem desse planeta antes de nós, para que nós pudéssemos estar em um ambiente minimamente saudável que nos permita ter essa experiência. Essa experiência que, apesar de ter um caráter aprisionador na consciência, é a oportunidade de liberação da consciência. É aqui que nós temos que fazer esse trabalho.

Então nós precisamos cultivar virtude, e nós vamos empoderar o nosso cultivo de virtude na medida em que nós fazemos o cultivo da sabedoria, que é a compreensão da visão, uma visão reta e uma intenção reta que nós temos através do ensinamento na primeira medida.

E aí, com base nisso, nós começamos o cultivo da meditação.

Percebe, que o Buda colocou isso de maneira muito lógica. Você precisa de uma compreensão primeiro, e você começa então a praticar virtude e então você começa a praticar meditação, e aí a meditação vai começar a lhe dar insights, que é o que vai alimentar aí o fluxo da visão correta a partir de dentro, e isso vai lhe levar a níveis cada vez mais refinados e transparentes de virtude, que empoderam e dão maior força ainda à sua meditação. Isso é uma roda, por isso que é a roda do Dharma, e essa roda do Dharma mói a sua ignorância e lhe libera do Samsara. E isso não é diferente da Ética Teosófica.

Então nós temos esses pontos como orientações e eu faço um pedido muito sincero, aos irmãos e irmãs do Jardim Aní e todos aqueles que assistirem esse vídeo: apliquem! Apliquem! Não adianta estudar Teosofia se você não aplica esses princípios básicos e fundamentais. Não tem possibilidade de desenvolvimento espiritual sem aplicar esses pontos. Então apliquem isso. Não se contentem em simplesmente aprender e ouvir e compreender. Apliquem. Isso deve ser colocado imediatamente em prática. Simples como é. Comece.

Comece a ouvir o ensinamento como forma de você compreender a realidade, comece a olhar para a sua intenção e corrigir sua intenção. Comece a prestar atenção em como você está usando seus pensamentos, sua fala e seu corpo. Então comece a aplicar os ensinamentos de meditação na sua vida. E especialmente, faça isso não porque você almeja um benefício pessoal, imediato. Faça isso porque nós somos um.

Se você quer servir a humanidade, você começa mudando a si mesmo. Esse é o maior serviço que você pode fazer, porque é um benefício real. Não que as obras de caridade não tenham sua importância. Tem sua importância, nós devemos praticá-las secretamente, porque a obra de caridade não deve ser motivo de orgulho, é uma coisa que nós devemos fazer silenciosamente. Mas o cultivo de si mesmo gera um impacto eterno sobre a humanidade. As obras de caridade tem sua função, elas aliviam o sofrimento temporariamente. Mas a transformação que você aplica em você, afeta a matéria do planeta, porque você deixa isso impresso no seu corpo. Afeta o campo psíquico da humanidade, porque você está afetando a tecitura energética. E em um certo sentido você nunca pode se elevar um degrau que seja na escala evolutiva sem levar com você, em alguma medida, todos os seres humanos. Essa humanidade é o seu corpo.

Então motivados por isso é que nós aplicamos o ensinamento teosófico nas nossas vidas e isso é verdadeiro altruísmo.

Gratidão!
Aní Maritumi


Partilha feita por Agnimitra em 08.02.19.
Transcrição feita por colaboradores do Jardim Aní – www.jardim-ani.com.br